A água percorreu centenas de quilômetros antes de chegar ao sul do Estado
Dias antes de Pelotas entrar na fase mais crítica, chuvas extremas já haviam elevado rios como Taquari, Caí, Sinos e Jacuí. Essa água chegou ao Guaíba e provocou níveis históricos na região de Porto Alegre.
Depois, a água seguiu para a Lagoa dos Patos e avançou lentamente para o sul. Arambaré, São Lourenço do Sul, Pelotas, São José do Norte e Rio Grande sentiram esse avanço em momentos diferentes.
Em Pelotas, a Lagoa já alta se combinou com chuva local, água do Canal São Gonçalo e da Lagoa Mirim, direção dos ventos, maré e condições de saída da água por Rio Grande.
O resultado foi uma inundação prolongada em áreas baixas, incluindo Laranjal, Colônia Z3, Pontal da Barra e regiões próximas ao Canal São Gonçalo.
Por isso Pelotas ainda aguardava a chegada de parte desse volume quando Porto Alegre já enfrentava seu período mais crítico.
Da chuva extrema ao retorno das famílias
A linha do tempo mostra onde estava o problema em cada momento, desde o avanço da água pelo Estado até a drenagem e a recuperação em Pelotas.
Começam os primeiros alertas de chuva forte
O INMET já indicava a possibilidade de muita chuva no Rio Grande do Sul. As condições para chuva forte continuariam nos dias seguintes.
Em 29 de abril foi emitido o primeiro aviso vermelho, com previsão de mais de 100 milímetros em 24 horas em uma grande área do Estado.
Chuva excepcional atinge o Centro e o Norte do Estado
A chuva mais intensa se concentrou principalmente nas regiões dos rios que alimentam o sistema do Guaíba.
Em partes do Rio Grande do Sul, choveram centenas de milímetros em poucos dias. Estudos posteriores classificaram o episódio como excepcional pela força e pela grande área atingida.
Rios começaram a subir rapidamente e várias cidades tiveram enchentes e enxurradas. Em Pelotas, o principal efeito ainda levaria alguns dias para chegar.
Rios sobem rapidamente e a água segue para o Guaíba
Santa Maria registrou 213,6 mm de chuva em um único dia em 1º de maio, recorde da estação em 112 anos. No dia seguinte, Caxias do Sul registrou 266,2 mm.
A água recebida por rios como Taquari, Caí, Sinos e Jacuí avançou em direção à Região Metropolitana e ao Guaíba.
Em 2 de maio, Pelotas já iniciou ações preventivas. A Prefeitura alertou que a água que inundava outras regiões poderia chegar depois à Lagoa dos Patos.
Pelotas começa a se preparar para a cheia
A Defesa Civil Estadual alertou para a possível subida da Lagoa dos Patos por causa da água vinda da Região Metropolitana.
Pelotas começou a preparar abrigos e acompanhar áreas mais vulneráveis, como Colônia Z3, Pontal da Barra, Laranjal e regiões próximas ao Canal São Gonçalo.
Famílias da Z3 começaram a retirar móveis de casa antes da chegada da água.
Guaíba atinge 5,35 m no Cais Mauá
Às 5h30, a estação Cais Mauá registrou 5,35 metros no Guaíba, acima do recorde histórico associado à enchente de 1941.
Grande parte desse volume seguiria para a Lagoa dos Patos, o caminho natural da água em direção ao sul.
5,35 m no Cais Mauá às 5h30ANA alerta para uma cheia histórica na Lagoa dos Patos
A Agência Nacional de Águas passou a destacar o monitoramento de Arambaré, São Lourenço do Sul, Pelotas e Rio Grande.
A ANA alertava que a cheia na Lagoa dos Patos e nas regiões de Pelotas e Rio Grande poderia superar o evento de 2023 e também a grande referência histórica de 1941.
O problema já não estava concentrado em Porto Alegre: a água avançava pelo sistema da Lagoa.
O risco aumenta no Laranjal
O Cemaden registrou a Lagoa dos Patos em 2,15 metros em Pelotas e indicou risco muito alto de inundação severa em municípios próximos à Lagoa, incluindo Pelotas.
O órgão destacou que vento, maré, nível da Lagoa e água vinda de outros rios ainda poderiam mudar o comportamento da cheia.
No Laranjal, a situação piorou. A região da Nova Prata, no Valverde, entrou em processo de evacuação.
A UBS Laranjal foi atingida e precisou fechar. Depois, foi constatado que a água chegou a aproximadamente 70 centímetros dentro da unidade.
Nesse mesmo dia foi organizada a Sala de Situação Municipal, no 9º Batalhão de Infantaria Motorizado.
Evacuações aumentam no Valverde
A Defesa Civil retirou moradores da rua Nova Prata, no balneário Valverde.
A ação envolveu cerca de 60 moradores de 15 casas em uma área considerada de alto risco. A água continuava avançando.
Valverde é tomado pela água
O Laranjal entrou em uma das fases mais graves da enchente.
Desde a madrugada, Bombeiros, Defesa Civil e Exército resgatavam moradores e animais ilhados no Valverde. Em alguns pontos, a água se aproximava de 1,5 metro de profundidade.
Ao meio-dia, o Canal São Gonçalo chegou a 2,72 metros, depois de subir 36 centímetros em cerca de 24 horas.
Ventos de leste e sudeste dificultavam a saída da água da Lagoa para o oceano e ajudavam a manter a água acumulada na região.
Canal São Gonçalo: 2,72 m ao meio-diaUFPel prevê a chegada do maior volume vindo do Guaíba
Simulações feitas por pesquisadores da UFPel indicaram que uma parte importante da água vinda do sistema do Guaíba chegaria a Pelotas principalmente entre 13 e 15 de maio.
Os pesquisadores explicaram que, por causa do relevo muito plano de Pelotas, a água tenderia a avançar mais devagar e se espalhar pelas áreas baixas, diferente das enxurradas rápidas vistas na Serra.
Canal São Gonçalo chega à marca de 1941
Às 19h, a régua do Porto de Pelotas registrou 2,88 metros.
Era a mesma marca associada à enchente de 1941, ocorrida 83 anos antes.
Áreas próximas ao Canal entraram em alerta máximo e a Prefeitura reforçou a necessidade de evacuação. Vento, chuva e maré ainda influenciavam o nível da água.
2,88 m — mesma marca de referência de 1941Chega uma parte importante da água vinda do norte da Lagoa
Esse era o período apontado pelas simulações da UFPel para a chegada de uma parte importante do volume vindo do Guaíba.
A cheia já atingia diretamente Valverde, Santo Antônio, Colônia Z3 e outras áreas baixas de Pelotas.
Nesse momento, não era apenas a chuva local ou o vento: a própria Lagoa dos Patos estava excepcionalmente cheia.
Canal passa da marca de 1941
Às 21h, o Canal São Gonçalo registrou 2,89 metros.
Pela primeira vez naquele evento, a medição passou da referência de 2,88 metros associada a 1941.
Pesquisadores apontaram que o grande volume já acumulado na Lagoa podia manter os níveis altos mesmo sem chuva ou vento forte naquele momento.
A água que chegava pelo sistema Guaíba–Lagoa saía por Rio Grande mais devagar do que entrava no sistema.
2,89 m no Canal São Gonçalo às 21hSão Gonçalo passa dos três metros
Durante a madrugada, o Canal São Gonçalo chegou a 3,00 metros. Ao meio-dia, atingiu 3,02 metros.
O nível já passava das referências históricas usadas durante a emergência em Pelotas.
Pesquisadores também observaram que a maré permanecia elevada havia mais de 36 horas na região de saída da Lagoa.
Com a saída por Rio Grande dificultada, a água se acumulava na Lagoa dos Patos e também dificultava a baixa do Canal São Gonçalo.
3,02 m no Canal São Gonçalo ao meio-diaA água continua muito alta por vários dias
Os níveis não voltaram rapidamente ao normal.
A Lagoa dos Patos havia recebido um volume enorme de água, e essa água precisava de tempo para seguir em direção ao oceano.
Em 21 de maio, Lagoa e São Gonçalo estavam relativamente estáveis, mas ainda altos. A previsão de mais chuva e mudanças no vento mantinha Pelotas em alerta.
Nova chuva agrava a situação
Pelotas voltou a receber muita chuva.
Entre o dia 22 e a manhã do dia 24, os acumulados ficaram entre aproximadamente 130 e 160 milímetros, chegando a 167 mm em uma estação do Sanep.
O solo já estava encharcado, Lagoa e Canal continuavam altos e a drenagem da cidade trabalhava sob forte pressão. Novas áreas entraram em risco máximo.
A enchente entrou em uma segunda fase crítica.
Canal São Gonçalo chega a 3,04 m
Quando parecia que o pior nível já havia passado, o Canal voltou a subir.
O São Gonçalo chegou a 3,04 metros, o maior valor registrado pela régua usada pela Prefeitura durante a emergência.
Mais de três semanas depois dos primeiros alertas para Pelotas, a cidade ainda enfrentava níveis extremos.
3,04 m — maior valor registrado pela régua usada na emergênciaA enchente ainda não tinha terminado
Em 29 de maio, uma vistoria identificou o Valverde como uma das áreas mais atingidas pelo avanço da Lagoa dos Patos.
No dia 30, mesmo depois do período mais crítico, os níveis continuavam altos: Canal São Gonçalo em 2,89 m e Lagoa dos Patos no Trapiche em 2,30 m.
A água baixava devagar.
Ainda não era possível retirar toda a água do Laranjal
Mesmo com a cheia diminuindo, grandes áreas do Laranjal continuavam alagadas.
Na manhã de 1º de junho, a Lagoa dos Patos no Trapiche marcou 2,43 metros.
Com a Lagoa ainda muito alta, era difícil bombear para fora a água que havia ficado acumulada nos balneários.
A drenagem começa a funcionar melhor
Com a Lagoa dos Patos recuando para aproximadamente 2,21 metros, foi possível retomar a casa de bombas do Pontal da Barra.
Bombas adicionais foram instaladas para retirar a água acumulada em Santo Antônio e Valverde.
Aos poucos, o principal problema deixou de ser a entrada de água da Lagoa e passou a ser retirar a água que havia ficado presa dentro dos bairros.
Termina a fase mais crítica da operação
Depois de 28 dias, foram encerradas as atividades coletivas da Sala de Situação Municipal.
Os níveis da Lagoa e do Canal estavam baixando e Pelotas entrava em uma nova etapa: a reconstrução.
Mesmo assim, Laranjal e áreas próximas ainda apareciam em vermelho no mapa de risco porque alguns moradores não conseguiam voltar para casa.
28 dias de operação da Sala de Situação MunicipalFamílias começam a voltar ao Laranjal
A drenagem começou a apresentar resultados mais claros nos balneários.
Famílias voltaram para casa e iniciaram a limpeza dos imóveis.
O Pontal da Barra ainda era uma das áreas do Laranjal com água acumulada e precisava de drenagem específica.
Começa a reconstrução
A fase de maior emergência perdeu força, mas os danos continuaram.
Casas, comércios, equipamentos públicos, estradas e serviços precisavam ser recuperados.
Moradores afetados começaram a ser cadastrados para programas de auxílio e reconstrução. Até 6 de junho, Pelotas já havia encaminhado mais de 3,7 mil registros ao Auxílio Reconstrução, com muitos moradores da Z3, Valverde e Santo Antônio.
UBS Laranjal volta a funcionar
Depois de 54 dias fechada, a Unidade Básica de Saúde do Laranjal reabriu.
A enchente havia deixado aproximadamente 70 centímetros de água dentro do prédio e atingido móveis, equipamentos e a rede elétrica.
A reabertura marcou mais uma etapa da recuperação do bairro.
54 dias até a reabertura da UBS LaranjalA água levou dias para avançar do Guaíba até o sul da Lagoa
Grande parte da água que atingiu Pelotas já estava em movimento pelo Estado antes de chegar ao município.
A Lagoa dos Patos precisou receber esse grande volume e levá-lo em direção a Rio Grande, principal caminho de saída para o Oceano Atlântico.
Esse processo é lento. A Lagoa é extensa, a região é muito plana e, em alguns momentos, vento e maré dificultaram ainda mais a saída da água.
Por isso, olhar apenas para a chuva que caía em Pelotas não mostrava todo o risco que se aproximava.
O que acontece no Guaíba pode aumentar o risco, dias depois, para comunidades do sul da Lagoa dos Patos.
Do Centro e Norte do Estado até o Oceano Atlântico
O trajeto abaixo ajuda a entender por que o risco para Pelotas continuava mesmo depois do momento mais crítico em Porto Alegre.
As grandes enchentes de Pelotas não aconteceram do mesmo jeito
Em 2001, os registros destacam o vento muito forte e o avanço da Lagoa. Em 2015, chuva intensa, água vinda de outras bacias e vento desfavorável se combinaram com níveis altos na Lagoa e no Canal São Gonçalo.
Vento de 105 km/h e avanço das águas no Laranjal
A Folha de S.Paulo registrou um ciclone extratropical no Rio Grande do Sul. Em Pelotas, o vento chegou a 105 km/h, cerca de 3 mil pessoas ficaram isoladas na Colônia Z3 e as águas avançaram aproximadamente 600 metros para dentro do Laranjal.
Em 2001, os registros dão destaque especial ao vento e à resposta da Lagoa junto à costa de Pelotas. Por isso, aquele episódio não é tratado como uma cópia de 2024.
105 km/h em Pelotas · avanço de cerca de 600 m no LaranjalChuva muito acima da média e níveis altos na Lagoa e no Canal
Até 20 de outubro, a Estação da Embrapa havia registrado 299 mm de chuva no mês, diante de uma média de 101 mm citada pela Prefeitura. Os registros municipais também apontam água chegando ao Canal São Gonçalo e à Lagoa dos Patos por diferentes caminhos.
O balanço municipal posterior situou o período mais crítico entre 18 e 19 de outubro, registrou 2,20 m no São Gonçalo e cerca de 1.300 famílias atendidas ao longo do evento.
São Gonçalo: 2,20 m · cerca de 1.300 famílias atendidasPara acompanhar Pelotas, é preciso olhar além do Laranjal
Para entender o risco em Pelotas, é preciso acompanhar vários pontos ao mesmo tempo:
- o Guaíba;
- a Lagoa dos Patos de norte a sul;
- o Canal São Gonçalo;
- a Lagoa Mirim;
- a chuva regional;
- os ventos;
- as condições de saída da água em Rio Grande.
A água que pode ameaçar Pelotas amanhã pode estar hoje a centenas de quilômetros de distância. Foi uma das lições mais importantes da enchente de 2024.
De onde vêm os dados e registros de 2024
Os dados e relatos usados aqui foram publicados durante e depois da enchente por órgãos públicos, instituições de pesquisa e sistemas de monitoramento. Os registros de 2001 e 2015 aparecem apenas como comparação histórica.
Níveis medidos em lugares diferentes podem usar réguas e referências diferentes. Por isso, os números não são comparados diretamente sem verificar onde e como cada medição foi feita.
